Ao pensar em comunicação durante um desastre, é comum imaginar antenas, cabos e sinal de celular. Foi por aí que começamos a investigar no Tridecs como as pessoas se comunicam quando enchentes e incêndios interrompem as redes do cotidiano. Ao longo das entrevistas com organizações, comunidades e grupos que atuaram nas enchentes do Rio Grande do Sul e nos incêndios do Maranhão, uma outra camada foi ganhando nitidez, menos evidente e igualmente decisiva: a estrutura que já existe no território e que, quando o sinal cai, passa a sustentar a circulação de informação.
As cozinhas solidárias aparecem com força nesses relatos. Muitas surgiram ainda na pandemia e foram reativadas durante as enchentes, e vários entrevistados as descreveram como o verdadeiro ponto de partida da resposta ao desastre. O MTST relatou que começou com uma única cozinha, na Zenha, em Porto Alegre, e precisou abrir novas unidades em regiões periféricas conforme a demanda crescia, saltando de cerca de 400 para 4 mil marmitas por dia no auge da crise no RS. O MAB atuou nessa mesma cozinha da Zenha, em parceria com o MTST, chegando a cerca de 3.200 marmitas diárias, e descreveu a entrega de alimento como uma forma de se aproximar das comunidades e escutar o que estava acontecendo nelas. A CUFA montou uma rede de mais de cem cozinhas comunitárias, e a Ação da Cidadania optou por fortalecer cozinhas que já existiam no território, articulando-as depois na Rede Alisol, que hoje reúne 31 cozinhas. Um ponto da conversa com a Ação da Cidadania resume bem o que observamos: essas redes comunitárias preexistentes já são, em si, uma infraestrutura crítica em situações de desastre.
O que essas cozinhas têm em comum é que concentram pessoas, alimento e movimento. Por isso acabam funcionando também como pontos de encontro e de mapeamento de quem precisa de ajuda. A marmita entregue serve de porta de entrada para descobrir demandas que nenhum cadastro externo alcançaria.
Algo semelhante ocorreu com escolas, ginásios e igrejas. A InternetSul, associação de provedores que atua no RS, relatou que os pequenos provedores conectaram abrigos e acampamentos, instalaram Wi-Fi e levaram geradores a pontos comerciais, criando centros comunitários em escolas, ginásios e igrejas equipados com conexão via satélite e pontos de recarga de celular, onde as pessoas registravam demandas e recados para familiares. Na Defesa Civil de Erechim, um dos relatos descreve o hospital de uma cidade isolada convertido em comitê de crise, por ser um dos poucos lugares que preservavam alguma conexão, e a central de doações do Cristo Protetor, em Encantado, operando como hub logístico e ponto de inteligência local. A infraestrutura de comunicação, quando a convencional colapsa, migra para os prédios que a comunidade já reconhece como referência.
Ao lado dessa estrutura física, há uma estrutura humana que se mostrou igualmente importante. Em quase todas as entrevistas aparecem figuras que fazem a informação circular quando a tecnologia não alcança. A CUFA relatou que, em bairros onde o sinal caiu por completo, a comunicação passou a depender de líderes comunitários que se deslocavam até áreas com sinal para recolher pedidos de resgate e transmiti-los a equipes e voluntários. O MAB estruturou coordenadores por rua e por grupo de famílias, responsáveis por recolher demandas e organizar a comunicação com o movimento. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, que acompanhou a resposta em Porto Alegre, chamou essas figuras de “líderes naturais”, como sendo os agentes comunitários de saúde, profissionais de escolas públicas e postos de saúde, lideranças religiosas, pontos de assistência que as pessoas já reconhecem e procuram. Em comunidades quilombolas do Maranhão, os relatos mostram a mesma lógica em outra escala, com vizinhos que se avisam por grupos de WhatsApp e se juntam para conter o fogo antes que qualquer órgão do Estado chegue.
Essa camada humana revela o que poderíamos chamar de estrutura de conexões entre as pessoas. Ela não se improvisa no dia do desastre. Vem de vínculos construídos ao longo de anos, de confiança acumulada, de redes que já existiam antes da água subir ou do fogo chegar. Não à toa, as respostas mais rápidas que encontramos vieram de organizações já presentes e reconhecidas localmente muito antes da emergência. A Ação da Cidadania destacou esse ponto ao afirmar que respostas rápidas só acontecem quando o território já está preparado antes da crise, o que começa por reconhecer os saberes locais e as redes comunitárias como infraestrutura essencial.
Registrar essas estruturas ajuda a ampliar a pergunta que orientou o início da pesquisa. A resiliência comunicacional depende das tecnologias disponíveis e, na mesma medida, da capilaridade que sustenta a informação quando os sistemas formais param. As cozinhas, as escolas, os postos de saúde, os centros religiosos e as redes de vizinhança compõem uma infraestrutura de comunicação que raramente é nomeada como tal, e que talvez seja uma das mais resistentes que temos.