Nesta série de Diários de Projeto, apresentamos as tecnologias que estamos investigando como parte de um kit de ferramentas para resposta rápida a incidentes e desastres climáticos. No diário anterior, falamos sobre o LoRa e o Meshtastic, e sobre como pequenas mensagens podem circular por uma malha de rádio sem depender de internet ou de torres de telefonia. Neste diário, voltamos a uma tecnologia mais antiga e, por isso mesmo, mais testada em situações extremas: o rádio de voz, nas suas três formas de uso no Brasil — livre, PX e PY.
Por que o rádio vem primeiro?

Quando energia, telefonia e internet caem ao mesmo tempo, o rádio de voz costuma continuar funcionando. Ele depende apenas de bateria, antena e linha de visada entre quem transmite e quem recebe, sem precisar de nenhuma infraestrutura intermediária.
Nas enchentes do Rio Grande do Sul em 2024, essa característica fez diferença concreta: radioamadores retransmitiram mais de quatro mil pedidos de socorro nos primeiros dias da crise, e em Muçum, rádios Rádio HT ligados a repetidoras foram, por um período, o único meio de comunicação plenamente funcional na cidade.
É por isso que, no plano de comunicação que o Tridecs vem desenhando, organizado no modelo PACE, a voz em VHF/UHF ocupa a camada primária. O LoRa e o Meshtastic, discutidos no diário anterior, entram como alternativa; o Wi-Fi combinado a enlaces de satélite funciona como contingência; e o botão SOS de um rastreador dedicado é a camada de emergência, acionada quando as demais deixam de responder.
As três categorias de rádio
No Brasil, usar um rádio de voz para se comunicar passa por uma escolha entre três categorias, cada uma com uma relação diferente entre facilidade de uso, alcance e exigência regulatória.
| Categoria | Faixa | O que precisa para operar | Alcance observado (Serra/RS) | Papel no Tridecs |
|---|---|---|---|---|
| Uso livre (walkie-talkie) | UHF, canais fixos | Rádio homologado; sem cadastro | 50 a 700 m | Comunidade e lideranças nos postos avançados |
| PX (Rádio do Cidadão) | 26,960 a 27,860 MHz (HF) | Cadastro gratuito no Mosaico + rádio homologado | Depende de antena e propagação | Estação na Base; contato com rodovias e caminhoneiros |
| PY (Radioamador) | Várias faixas, de HF a micro-ondas (2 m, 70 cm etc.) | Certificado COER + licença de estação | Quilômetros; dezenas com repetidora | Coordenação estratégica e redes de emergência |
Os alcances dessa tabela vêm dos testes de campo da fase 1 do projeto, realizados em relevo acidentado. Eles variam bastante conforme a altura da antena, a vegetação e os obstáculos entre os pontos.
Rádios de uso livre (walkie-talkie)
São os aparelhos mais familiares ao público em geral: os walkie-talkies usados em acampamentos, trilhas, eventos e no dia a dia de equipes de segurança e logística. Marcas como Motorola Talkabout, Intelbras e Philips são exemplos comuns desse tipo de rádio.
São a porta de entrada para a comunicação por voz: canais pré-definidos, pareamento simples e nenhum cadastro exigido. Qualquer pessoa da comunidade aprende a usar em poucos minutos, e é por isso que o Tridecs os distribui a lideranças nos postos avançados.
O limite está no alcance curto e na regra de homologação: apenas rádios homologados pela Anatel para essas frequências podem transmitir nelas. Programar um rádio de radioamador, como os populares Baofeng, para operar nos canais de uso livre funciona tecnicamente, mas é irregular.
Na geração mais recente desses equipamentos, alguns recursos fazem diferença real em campo:
- certificação IP65 / IP68 , contra imersão e poeira;
- Vox , para falar com as mãos ocupadas, por exemplo ao carregar equipamentos ou se deslocar em terreno difícil;
- baterias de troca rápida e recarga por USB.
Quem poderia usar esse canal, e como
| Grupo | Proposta |
|---|---|
| Comunidade e lideranças locais | Comunicação direta de curto alcance entre vizinhos, postos avançados e pontos de apoio, sem necessidade de cadastro. |
| Equipes em abrigos e pontos de distribuição | Coordenação rápida dentro de um mesmo abrigo ou centro de distribuição, sem depender de rede de telefonia. |
| Voluntariado em mutirões e ações coordenadas | Troca de instruções operacionais entre equipes próximas durante uma atividade. |
| Equipes de segurança e logística local | Monitoramento e comunicação entre pontos fixos durante a operação. |
PX: o Rádio do Cidadão

O PX é o rádio que a cultura dos caminhoneiros tornou popular no Brasil, usado havia décadas para avisar sobre blitz, acidentes e condições da estrada com o já famoso “câmbio, câmbio”. Aparelhos de marcas como Voyager, President e Intelbras estão entre os mais conhecidos nessa faixa de 27 MHz.
O PX opera na faixa de 27 MHz e tem a emergência como finalidade expressa: a Anatel lista catástrofes, incêndios, inundações e acidentes entre os usos previstos do serviço (Anatel).
Como começar. Desde 2020, o PX é um serviço de radiação restrita , dispensado de licença individual. Basta um cadastro gratuito no Sistema Mosaico , sem prazo de validade: uma mesma entidade pode registrar quantas estações quiser com um único cadastro. Vale imprimir o comprovante e mantê-lo junto ao rádio, para eventual fiscalização.
Parâmetros técnicos (referência da antiga Resolução 444/2006, mantida até a publicação de novos atos técnicos):
- faixa de 26,960 a 27,860 MHz, com canais espaçados de 10 kHz;
- modulação AM ou FM, com largura máxima de 8 kHz em DSB e 4 kHz em SSB;
- os canais de 1 a 28 devem aceitar interferência de equipamentos industriais, científicos e médicos ( ISM ). Para tráfego operacional, prefira canais acima do 28.
Na prática. Antenas de 27 MHz são longas — cerca de 2,7 m em um quarto de onda —, o que faz o PX funcionar melhor como estação fixa ou móvel na Base do que como rádio de mão. Em períodos de alta atividade solar, a propagação ionosférica também pode trazer interferência de estações distantes.
Quem poderia usar esse canal, e como
| Grupo | Proposta |
|---|---|
| Estação na Base | Canal fixo ou móvel de contato com rodovias, caminhoneiros e comunidades que já usam o PX no cotidiano. |
| Equipes de logística e transporte | Coordenação do deslocamento de suprimentos e equipamentos ao longo de rodovias. |
| Comunidades rurais e ribeirinhas | Canal já familiar a quem mora ao longo de estradas e rios, sem exigir equipamento especializado. |
| Organizações de ajuda humanitária | Contato com fornecedores, transportadoras e apoio externo que já operam historicamente nessa faixa. |
PY: o Serviço de Radioamador
O radioamadorismo tem seus próprios ícones de equipamento: marcas como Yaesu, Icom e Kenwood são referência entre quem já tem certificado, enquanto rádios mais baratos, como os populares Baofeng, viraram a porta de entrada de quem está começando — desde que configurados corretamente dentro das faixas e regras do serviço.
O radioamador, identificado pelo prefixo PY , oferece o maior alcance e a maior flexibilidade técnica entre as três categorias, em troca de uma habilitação mais exigente. Para operar são necessários três elementos: o operador com certificado, o serviço autorizado e a estação licenciada.
Habilitação. O COER é gratuito e obtido por prova online, em três classes. A Classe C é a de entrada, com idade mínima de 10 anos e potência de até 100 W. A Classe B chega a 1.000 W, e a Classe A, a 1.500 W, com acesso a todas as faixas de frequência.
Licença. A autorização de uso de radiofrequências vale 20 anos, ou 10 a pedido da pessoa operadora. A renovação deve ser solicitada no Mosaico três meses antes do fim do prazo.
Entidades. Além de pessoas físicas, podem ter estação própria entidades de defesa civil, universidades e organizações sem fins lucrativos. Nesses casos, quem responde pela estação precisa ter Classe A.
Em emergência, a regra muda a favor do socorro:
- comunicações de emergência têm prioridade sobre qualquer outro tráfego, e os demais operadores devem liberar a frequência;
- é permitido transmitir em mais de uma faixa ao mesmo tempo;
- Repetidora pode transmitir sem limite de tempo;
- a Frequência Nacional de Chamada em 2 metros, 146,520 MHz, é referência para chamadas gerais e apoio em emergências.
Terceiros. Uma pessoa sem COER pode falar pela estação, desde que na presença do radioamador responsável. Assim, uma liderança comunitária pode passar um pedido de socorro diretamente pela Base, com a pessoa operadora ao lado.
Homologação. Todo equipamento em uso no Brasil precisa ser certificado ou homologado, inclusive os de fabricação própria. Modificações que tirem o rádio das condições permitidas podem ser tratadas como infração.
Quem poderia usar esse canal, e como
| Grupo | Proposta |
|---|---|
| Coordenação estratégica do Tridecs | Comunicação de maior alcance entre a Base e postos avançados distantes. |
| Rede de radioamadores voluntários | Mobilização de operadores licenciados para apoiar comunicações durante uma emergência, como ocorreu no Rio Grande do Sul em 2024. |
| Defesa civil e órgãos públicos | Prioridade legal de tráfego em situações de emergência declarada. |
| Equipes de telecomunicações | Camada de coordenação entre pontos isolados enquanto a infraestrutura convencional é reestabelecida. |
Esses exemplos, nas três categorias, não representam um conjunto fechado de usos. Fazem parte das hipóteses que o Tridecs quer testar em campo, buscando entender em quais situações cada tipo de rádio complementa melhor o LoRa, o Meshtastic e as demais camadas do plano de comunicação.
Como operar em emergência
O procedimento é o mesmo nas três categorias: escutar, falar curto e registrar.
- Escute antes de falar. Alguns segundos bastam para não atropelar outra transmissão.
- Aperte, espere, fale. Aperte o PTT , espere um segundo e fale com o rádio a cerca de 5 cm da boca, sem gritar.
- Anuncie a prioridade. Diante de risco à vida, diga “break break” ou “emergência”. Quem ouvir deve liberar o canal.
- Siga a ordem da mensagem. Quem chama → onde está → o que aconteceu → quantas pessoas → do que precisa.
- Soletre o que for difícil. Nomes e endereços, pelo alfabeto fonético (Alfa, Bravo, Charlie…).
- Confirme e registre. A Base anota hora, quem chamou, posição e situação de cada contato.
Um exemplo de como essa sequência soa na prática: “Base, aqui Campo 1. Rua X, perto da escola. Casa ilhada, três pessoas, um idoso. Precisamos de barco. Câmbio.”
Três cuidados adicionais aumentam o alcance e a autonomia da operação:
- Altura vale mais que potência. Subir alguns metros — uma laje, um morro, um mastro — rende mais do que dobrar os watts.
- Potência baixa sempre que possível. Economiza bateria e reduz interferência.
- Contato programado. A Base chama em intervalos fixos; sem resposta, a operação passa para a próxima camada do PACE.
Por que seguir as regras importa
Operar corretamente evita três problemas: interferência em outros serviços, uma das maiores causas de reclamação; ação de fiscalização por irregularidade; e situações de risco, inclusive reputacional, para quem opera e para a comunidade de radioamadores.
Em emergência isso pesa ainda mais: uma transmissão irregular pode derrubar justamente o canal que alguém está usando para pedir socorro.
Quais oportunidades essa camada oferece?
- Funcionamento independente de energia elétrica, internet e redes de telefonia móvel.
- Procedimento simples e replicável, que pode ser ensinado a lideranças comunitárias em pouco tempo.
- Três níveis de alcance e exigência regulatória, que podem ser combinados conforme a necessidade de cada ponto da operação.
- Prioridade legal para comunicações de emergência no serviço de radioamador, incluindo liberação de frequência e uso de repetidoras sem limite de tempo.
- Baixo custo de entrada para rádios de uso livre e para o cadastro no PX.
E quais são os desafios?
- Habilitação e cadastro: o uso regular de PX e PY exige cadastro ou certificado, o que implica planejamento prévio e não pode ser resolvido no meio de uma emergência.
- Dependência de altura e linha de visada: relevo, vegetação e construções afetam diretamente o alcance, especialmente para rádios de uso livre e PX.
- Diversidade de equipamentos e regras: cada categoria tem faixa, canalização e limites técnicos próprios, o que exige atenção redobrada ao configurar e distribuir os rádios.
- Disciplina de operação: o procedimento de escutar, falar curto e registrar só funciona se for seguido por todas as pessoas envolvidas, inclusive sob pressão.
- Energia e manutenção: mesmo rádios de baixo consumo dependem de baterias dimensionadas, monitoradas e, se necessário, substituídas ao longo da operação.
- Homologação dos equipamentos: todo rádio em uso, incluindo os de fabricação própria, precisa estar dentro das condições técnicas aprovadas pela Anatel.
O que queremos entender melhor com os testes?
Assim como fizemos com o Wi-Fi e com o LoRa, não partimos da ideia de que já temos todas as respostas sobre o rádio de voz.
Queremos compreender como o alcance observado em campo varia entre as três categorias conforme relevo, vegetação e altura de antena; quanto tempo leva para formar e treinar uma equipe capaz de operar PX e PY com segurança; como organizar o cadastro no Mosaico e a obtenção do COER antes de uma emergência, e não durante ela; e como esse procedimento de voz se combina, na prática, com o LoRa, o Meshtastic e as demais camadas do modelo PACE.
Com este diário, fechamos o ciclo dedicado às tecnologias que sustentam a camada primária e a camada alternativa do nosso plano de comunicação: Wi-Fi, LoRa e Meshtastic, e agora o rádio de voz. A partir daqui, a investigação do Tridecs muda de foco: em vez de olhar tecnologia por tecnologia, passamos a olhar para o conjunto. Os próximos diários vão tratar de comunicação off-grid, de consciência situacional e de SIGINT, buscando entender como essas peças se combinam para sustentar a resposta a um desastre do início ao fim.
Para se aprofundar
Este diário resume o que investigamos até aqui. Na seção de documentação do projeto, organizada no modelo Diátaxis, você encontra o conteúdo em formato de consulta:
- Categorias de rádio no Brasil e o modelo PACE — explicação
- Parâmetros técnicos de PX e PY — referência
- Como se cadastrar no PX e se habilitar no PY — como fazer
- Como operar o rádio em emergência — como fazer
Até a próxima!