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Roaming nas enchentes: a regra que religou milhares de celulares no RS

Roaming nas enchentes: a regra que religou milhares de celulares no RS
3 de agosto de 2026

Quase não pensamos na operadora do nosso celular no dia a dia. Ela garante que a ligação complete e a mensagem chegue, e costuma passar despercebida até o momento em que o sinal some. Numa situação de desastre, essa falha passa a comprometer a capacidade das pessoas de pedir ajuda.

Ao mapear as tecnologias e as respostas de comunicação mobilizadas durante as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, mantivemos contato com a Anatel no estado, que acompanhou a crise de perto e nos ajudou a entender como as redes se comportaram ao longo do desastre. Foi nessa conversa que chegamos a um mecanismo pouco presente nas discussões sobre resiliência, ainda que tenha sido decisivo naquele contexto: a abertura de roaming entre operadoras.

Em condições normais, cada celular se conecta apenas à rede da operadora contratada. Se essa operadora está fora do ar em determinado município, o aparelho perde o sinal mesmo que outra empresa mantenha ali sua rede funcionando. Foi o que ocorreu em dezenas de cidades gaúchas durante o pico da enchente, com torres derrubadas, estações submersas e, em muitos lugares, apenas uma das operadoras ainda em operação. No auge da crise, segundo nos foi relatado, cerca de 170 municípios dependiam de uma única rede ativa.

A abertura de roaming suspendeu temporariamente essa restrição. Por determinação da Anatel, os clientes das operadoras que haviam saído do ar passaram a se conectar automaticamente à rede que continuava funcionando, como se fossem clientes dela, sem trocar chip, alterar configurações ou realizar qualquer ação manual. Pessoas isoladas e sem entender por que o celular havia parado de funcionar, voltaram a conseguir enviar uma mensagem ou completar uma ligação. Sem a medida, conforme relatado, o número de cidades totalmente incomunicáveis, que chegou a algo entre dez e quinze no ponto mais grave, teria sido maior e teria durado mais tempo.

Essa medida ajuda a enxergar como as redes de telecomunicações são organizadas. A separação entre elas, que faz um aparelho perder o sinal enquanto outro ao lado segue conectado, não tem origem em qualquer limitação técnica. A infraestrutura instalada é capaz de atender a todos os aparelhos ao alcance de uma antena, independentemente do contrato de cada usuário. O que mantém as redes apartadas no cotidiano é o modelo de negócio que organiza a concorrência entre as operadoras. Quando a agência determina a abertura de roaming, nenhuma tecnologia nova precisa ser construída ou acionada; o que muda é uma regra comercial, suspensa para que a infraestrutura disponível atenda a todos.

A comunicação mais ampla, em que qualquer aparelho se conecta a qualquer rede disponível, já é possível com a estrutura que existe hoje. Ela permanece restrita no dia a dia por uma decisão de mercado, e a crise acaba revelando essa capacidade que estava contida. O ponto merece atenção porque a resposta a um desastre nem sempre passa pela introdução de novas soluções; parte dela depende das regras que definem como a infraestrutura já instalada pode ser usada.

O roaming também tem seus limites, que vale reconhecer. Ele depende de que ao menos uma rede esteja ativa e funcionando. Nas cidades onde a energia elétrica foi destruída, as estações ficaram submersas e as torres foram arrastadas pela correnteza, não havia rede alguma a compartilhar. A abertura de roaming sustentou a comunicação nos municípios onde algo permanecia em operação, e pouco pôde fazer nos lugares em que a infraestrutura física foi inteiramente perdida.

Essa diferença entre os municípios ajuda a definir o que investigamos no Tridecs como resiliência comunicacional. Uma rede resistente depende da existência de alternativas quando uma delas falha, e parte dessa resiliência está justamente nas regras que determinam quando a infraestrutura pode ser compartilhada. O roaming aciona uma redundância que já existe no território, distribuída entre operadoras diferentes, e a torna disponível no momento em que se mostra mais necessária. Registrar esse mecanismo faz parte do esforço de entender o que sustenta a comunicação quando as redes que usamos todos os dias deixam de funcionar.

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